Dave Grohl escreve carta à música ao vivo

Para muitos, a música funciona como um escape. Para outros, como uma diversão. Para outros, como uma forma de viver. Em tempos de pandemia, funciona como uma indispensável companheira, quer através dos fones, quer através de uma coluna de se ter por casa. Mas nem sempre é suficiente. Dave Grohl lançou, no dia 11 de maio, um ensaio sobre a fome de um grande prato de suor, ouvidos rasgados e rock and roll ao vivo.

Fonte: Renan Olivetti| I Hate Flash | Rolling Stone

O vocalista e guitarrista dos Foo Fighters escreveu, para a revista The Atlantic, sobre as saudades que tem de se apresentar ao vivo e das suas experiências enquanto artista. A banda viu-se forçada a adiar a sua digressão devido à pandemia da Covid-19.

Não há nada como a energia e a atmosfera da música ao vivo. É a experiência mais marcante da vida, a de ver o teu artista favorito a atuar em palco, em carne e osso, ao invés de uma imagem unidimensional a brilhar no teu colo, enquanto desces, em espiral, o YouTube, à meia-noite.

Para Dave, uma das maiores relíquias da música é a conexão que ela permite estabelecer entre o artista e o público. Aparentemente desconhecidos, mas unidos por aquilo que sentem quando a ouvem, pela vibração que desperta em si nos concertos, quer o público, enquanto assiste, como o artista, enquanto a partilha.

Não é para me gabar, mas eu acho que tenho o melhor lugar da casa há 25 anos. Porque eu vejo-vos. Vejo-vos pressionados contra as grades da frente. Vejo-vos a batucar o ar durante as vossas músicas favoritas nas vigas distantes. Vejo os vossos cartazes caseiros e as vossas t-shirts vintage. Ouço as vossas gargalhadas e os vossos gritos e as vossas lágrimas. Vejo-vos a bocejar e vejo-vos a desmaiar bêbedos nos vossos lugares. Já vos vi no meio de furacões, de um calor insuportável, em temperaturas de gelar os ossos.

O vocalista dos Foo Fighters enaltece essa relação de proximidade e de entrega e necessidade mútua entre o público e o artista, em momento de concerto. Além disso, acredita que as suas músicas sem um público, que lhes garanta que não estão sozinhos, são “apenas boas”. Uma vez com plateia, os músicos e o público trabalham em uníssono e constroem espetáculos memoráveis.

Fonte: Nick Wass/Invision/AP

Em quarentena, Dave Grohl considera necessário perceber os estágios do isolamento e da ansiedade resultantes da situação e saber combiná-los com o acompanhamento musical adequado. Assim sendo, sugere algumas músicas associadas aos vários momentos em casa. A revista The Atlantic ainda disponibilizou uma playlist no Spotify com as sugestões do artista.

É difícil imaginar a partilha de experiências como esta, outra vez. Não sei quando será seguro voltar a cantar de braço dado, no topo dos nossos pulmões, corações acelerados, corpos a mexer, almas a transbordar de vida, mas sei que o voltaremos a fazer, porque temos de o fazer. Não é uma escolha.