Isolamento: um gatilho para a violência doméstica

Se com dias preenchidos e longe de casa os casos de violência doméstica são uma constante, em confinamento esta realidade vê-se aumentada. Em Espanha, foram já três mulheres mortas, vítimas de violência doméstica.

Fonte: José Carlos de Carvalho | Visão

No dia 19 de março deste ano, Carolina Branco escreveu no Observador sobre o tema que inquieta durante todo o ano: violência doméstica. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) alertou, no início da pandemia que esta podia ser uma alavanca para o aumento dos casos registados.

Isto, porque a quarentena trouxe e vem trazendo uma proximidade forçada aos casais. Os casos podem ser de continuidade ou, devido a toda a privação de saídas e ao desafio psicológico associado, ser novos episódios de maus tratos físicos, psicológicos e sexuais. Tendo em conta esta situação, a APAV apelou atenção acrescida às vizinhanças.

O Governo e a Fundação Vodafone lançaram, no dia 27 de março, uma linha de apoio para vítimas de violência doméstica, a fim de ajudar e libertar um pouco a associação portuguesa, em tempos de isolamento. De acordo com o Jornal de Notícias, Daniel Cotrim, da APAV, revela que, no final do mês de março, o número de queixas diminuiu cerca de 15% a 20%, desde o início desse mês. Em contrapartida, a nova linha recebeu, em 30 dias, 113 chamadas.   

Vítimas incapazes de fazer a denúncia

Ainda que as queixas tenham diminuído, a APAV sublinha a dessemelhança deste facto com a realidade. Por um lado, as vítimas estão fechadas em casa com os agressores, dificultando o pedido de ajuda. Em segundo lugar, a crise financeira espoleta um sentimento de insegurança que as impede de pedir ajuda.

Assim como em Portugal, a polícia espanhola registou uma queda acentuada nas denúncias, de acordo com o The Guardian. María Ángeles Carmona, presidente da agência governamental que lida com a violência de género, acredita que esta queda se deve às restrições quanto à liberdade de circulação. Segundo a presidente, cerca de 30% das queixas feitas à polícia envolvem a quebra de ordens de restrição. Uma vez proibidos de circular, sem uma necessidade específica, os agressores não têm como chegar até às vítimas.

Em Espanha, Ana Bella dá nome a uma fundação que preza pelo combate à violência de género. A sobrevivente a casos de violência confidencia que, para a apresentação de uma queixa formal contra o agressor, a vítima precisa do apoio da família e de pessoas que a rodeiem. Hoje em dia, nas condições que a Covid-19 proporcionou, as vítimas estão fechadas em casa sem esse apoio crucial.

Em Espanha, morreram já três mulheres desde o início do confinamento obrigatório

Elaborado por Ana Sofia Neto

Ao The Guardian, Ana Bella diz que a maior barreira para denunciar os abusos são os laços emocionais associados ao agressor. “É o único crime onde a vítima não quer vingança, mas apenas viver em paz. É muito difícil denunciar o pai dos filhos à polícia. Muitas mulheres sentem-se culpadas, porque estão a enviar os pais dos filhos para a prisão.”